Quinta-feira, 4 de Novembro de 2004

A minha comiseração por indivíduos, cuja personalidade é decalcada de outras



É nula. Até porque não se justifica. E aborrece.



Banda sonora deste post: Making plans for Nigel, a brilhante homenagem dos Nouvelle Vague aos XTC. This is pop, man...



Até há bem pouco tempo, não me parecia nada viável a ideia de existirem indivíduos com falta de personalidade. Desde cedo, solidifiquei – tendo me sido cedido o cimento por várias empresas de venda de materiais de construção, nomeadamente a Filosofia, S. A. – a ideia de que cada pessoa tem, pelo menos, uma personalidade que o torna individual, único e ser vivente, pensante. Prova disso seria a constatação de não existirem duas pessoas iguais. Acontece que há cimentos que mais parecem betumes de má qualidade. Não que a culpa seja da empresa que o venda, mas mais pela expectativa de quem o compra e utiliza. O que não deixa de ser enervante, mas é, principalmente, necessário e feliz, ao mesmo tempo.

A verdade é que há pessoas iguais, no que à personalidade diz respeito, mas no sentido casual da coisa, o que é sebem. E não há nada como viver meia hora a mais, ou duas horas, ou meses, ou dias, em contacto com o próximo – física ou literariamente –, para nos apercebermos disso mesmo. Até podem, eventualmente, pensar de diferentes maneiras, mas têm um modo de agir, de seguir, de rir, de reagir idêntico, ou até de escrever, que as aproxima, ou não. Eu posso ter, por exemplo, uma batukada tal e qual a mim, no sentido personal da coisa, noutro lado qualquer da Terra – olha, no Ghana, por exemplo – , e nunca saber da cena. E não deixaremos – eu e a outra batukada – de ser indivíduos únicos por isso. Mas é uma casualidade, e ponto final, que não há mal. Porque, porra, vivemos no mesmo mundo. Absorvemos as mesmas coisas, caramba. A minha amiga Sara – mais um bocadinho e era minha irmã, alto lá – é psicóloga e comunicadora exímia, e faz o favor de me explicar estas coisas. Com lápis n.º 3 e papel quadriculado A5 e tudo, se for o caso. Nunca calhou, mas tenho a certeza de que era pessoa para pegar no lápis n.º 3 e no papel quadriculado A5 para me explicar estas coisas. Importantes.

Agora andam, por aí, a cair-me lascas betumadas de desilusão, lá está. Mas as lascas de desilusão não andam a cair por causa de não sermos únicos, no que à personalidade diz respeito. Não, pá! É que, no meio disto tudo, que é muito bonito, há – facto consumadíssimo – personalidades e, consequentemente, indivíduos, que se ancoram, deliberadamente, a outras que já existem, numa tentativa de fundição absoluta, ou decalque, enfim, para, assim, esconderem os seus menos. Para esconderem a merda que são, por assim dizer. É desagradável. Não me cheira a indivíduos. Cheira a qualquer coisa aborrecida. É como comprar o vestido-sucesso do mês e mostrá-lo à amiga, que no dia seguinte compra um igual. Ou pior. Pior, se calhar. É como comprar o vestido-sucesso do mês e mostrá-lo à amiga, que no dia seguinte compra um igual, e ainda tem o descaramento sonso de dizer que não o viu antes na amiga que o comprou primeiro. E digo mais, por mim, os decalques eram corridos à pazada. Até porque não têm razão nenhuma de ser. Nenhuma.



Com tanto que há para respirar, absorver, aprender, interpretar, devorar e criar neste maravilhoso mundo, e em não bastando as influências e as inspirações em outros, eu pergunto expletivamente: quanta falta de vergonha é precisa para se cravar uma âncora numa pessoa sem aviso, nem permissão?



Os mini-posts seguem dentro de momentos.
publicado pela batukada às 23:23
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