Quarta-feira, 7 de Setembro de 2005

Dois anos de Conversa na Travessa

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De volta aos sete anos. Naquele dia, o Presidente da República era o General Ramalho Eanes e a camada do ozono praticamente não existia. Naquele dia, o primeiro dia de aulas da minha segunda classe, levei a mochila nova apinhada de um cheirete insuportável a papelaria. Um conjunto de dez lápis de cera, um conjunto de dez lápis de cor, um caderno de papel de lustro, um conjunto de cinco canetas de feltro, um tubo de cola, uma tesoura, três livros de leitura, dois livros de exercícios, um caderno de argolas A4 com a Pantera Cor-de-Rosa na capa, um dossier A4 azul-claro, folhas lisas, folhas pautadas, folhas quadriculadas, uma caneta azul, uma caneta vermelha, uma caneta verde e uma caneta preta exalavam o mais triste dos pivetes. Só de os imaginar ali dentro, às minhas costas, vinham-me à boca pequenos arrotos reeditados.

Tudo aquilo me pesava na escoliose, mas tinha de ser, não fosse faltar alguma coisa logo no primeiro dia em que ia para a escola nova. É que se faltasse alguma coisa logo no primeiro dia em que ia para a escola nova, matava-me a mim e matava os outros todos que estavam à minha volta, precisamente por esta ordem (sentimento que, curiosamente, prevalece em certas e determinadas situações do presente). Matá-los-ia a todos ao pontapé, pela minha saúde.

Posso dizer, sem hesitar, que este foi um dos piores dias da minha vida: a angústia subia-me entranhas acima e as lágrimas desciam-me pescoço abaixo como se não houvesse anteontem. Até gritei, parece-me. Senti uma vontade de ir para casa abraçar os meus como, se calhar, nunca mais voltei a sentir. Berrei várias vezes ao tempo, cabrão, que acelerasse o passo, que chegasse ao fim mais rápido nesse dia. E aqui é que é: o cabrão não acelerou.

Pois agora, meu filho, aceleras que te lixas. Agora andas aí na linha, meu palhaço. Agora tens uma potência de 261 kW às 6600 rpm. 325 cavalos, meu filho. Sim, sim, tu, meu palhaço. Só para ti: dois anos de Conversa na Travessa, e dá a sensação que ainda ontem estava a berrar agarrada à velha que morava à minha frente, feita parvinha, na merda do pátio principal da escola primária, com toda a gente a olhar para mim. ENGOLE! Ah, ah, mais, meu grande deficiente: dois anos de Conversa na Travessa e parece que ainda ontem andávamos todos a jogar à Cabra Cega porque não havia computadores em casa para entreter. TOOOOOMA!

publicado pela batukada às 10:45
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